Interdependência é a chave

deniselagrotta curadoria de conteúdos

“Nós não existimos: coexistimos e somos todos interdependentes” – Leonardo Boff

Nos últimos 1200 anos a civilização ocidental tem sido condicionada a acreditar que os seres humanos são entidades separadas, distintas e distantes entre si e do ambiente em que vivem.

Leonardo da Vinci não pensava assim, pois todas as suas criações partiam do princípio de que tudo e todos estão interconectados.

Na base das sociedades africanas essa visão unificante do mundo nunca deixou de ser considerada. Trata-se do “Ubuntu”, que na linguagem Bantu representa a conexão entre o individual, a humanidade e o mundo.  O conceito do Ubuntu  define  um  indivíduo em  termos  de seus relacionamentos com os outros, assentando na máxima Zulu Umuntu ngumuntu ngabantu”: uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas:

Lendo a crônica de Roberto DaMatta, intitulada “a necessidade do outro”, chama a atenção um trecho que se relaciona com o conceito Ubuntu de interdependência:

A sensação de transitar por várias etapas críticas do meu ciclo existencial (…) foi toda construída por outras pessoas. Foram todos urdidos de fora para dentro, por meio de conversas, presentes, admoestações, rituais, aprovações, elogios e reparos feitos por um outro. Acentuo esse “outro” porque sem ele eu não seria capaz de saber que tento ser simultaneamente um indivíduo autônomo e livre; e uma pessoa devedora de muitas pessoas e relações as quais despertaram os vários “eus” que convivem dentro de mim”.

Sem essa relação com o outro, não conseguiríamos sequer reconhecer nossa humanidade. Como disse Carl Sagannós somos a soma da influência e do impacto que causamos nos outros.

No livro “Uma Ética Para o Novo Milênio”, Dalai Lama analisa vários aspectos da interdependência, e afirma que não é possível separar qualquer fenômeno do contexto de outros fenômenos:

Num primeiro nível, recorre-se ao princípio de causa e efeito, pelo qual todas as coisas e acontecimentos surgem dependendo de uma complexa rede de causas e condições relacionadas entre si. Sendo assim, nada nem nenhum acontecimento pode vir a existir ou permanecer existindo por si só. (…)

Num segundo nível, a interdependência pode ser compreendida em termos da mútua dependência que existe entre as partes e o todo. Sem as partes, não pode haver o todo e, sem o todo, o conceito de parte não tem sentido. A idéia de todo implica partes, mas cada uma dessas partes precisa ser considerada como um todo composto de suas próprias partes.(…)

No terceiro nível, pode-se dizer que todos os fenômenos têm uma origem dependente porque, quando os analisamos, verificamos que, em essência, eles não possuem uma identidade. Isto pode ser compreendido melhor se pensarmos na maneira como nos referimos a certos fenômenos. Por exemplo, as palavras “ação” e “agente”: uma pressupõe a existência da outra. Assim como “pai” e “filho”. A pessoa só pode ser um pai se tiver filhos. E um filho ou uma filha são assim chamados apenas como referência ao fato de terem pais.”

Interdependência é vida. O físico Fritjof Capra demonstra que a “interdependência – a dependência mútua de todos os processos vitais dos organismos – é a natureza de todas as relações ecológicas. O comportamento de cada membro vivo do ecossistema depende do comportamento de muitos outros. O sucesso da comunidade toda depende do sucesso de cada um de seus membros, enquanto o sucesso de cada membro depende do sucesso da comunidade como um todo”.

Estamos envolvidos por uma teia de conexões, o que nos torna seres cooperativos. Por causa desta teia chegamos até aqui, mas se quisermos ter um futuro precisamos declarar a nossa interdependência!