Fios de conexão

deniselagrotta concepção de projetos, curadoria de conteúdos

"A realidade é feita de círculos, mas nós vemos linhas retas" - Peter Senge

A educação ocidental tem sido baseada na herança cultural de que aquilo que não pode ser medido, tocado e experimentado não é real, e que é necessário classificar e dividir tudo em partes para tentar entender o seu funcionamento. Foi com base nessa visão mecânica e fragmentada que nasceu a noção de que somos todos independentes uns dos outros e da natureza.

Mas hoje a Ciência demonstra que essa separação é ilusória.

Um experimento feito pelo neurocientista sueco Henrik Ehrsson  e pelo professor inglês Marcus du Sautoy mostra como é possível o cérebro ser enganado, e que a existência de um “eu” separado é uma ilusão criada pelo corpo.

No documentário “Iam”, o cientista Dean Radin, do Institute of Noetic Sciences, afirma que “tudo que conhecemos fica sobre uma estrutura na qual tudo está o tempo todo conectado. Então não há fundamentalmente separação. A separação só aparece quando olhamos com os nossos olhos”.

Esse é também o entendimento de Fritjof Capra no livro “As conexões ocultas”. Ele demonstra que a vida é tecida por uma rede de conexões complexas, ainda que não perceptíveis pelo sentido físico da visão. Um exemplo disso é o caso da reintrodução de lobos no Parque Nacional de Yellowstone, cujos efeitos foram muito além daquilo que a lógica linear poderia prever.

Outro exemplo vem do documentário “Connected”: Em 1958, o líder chinês Mao Tsé-Tung queria exterminar os pardais, porque eles destruíam tudo comendo os grãos de sementes. Quebraram os ovos, mataram os filhotes e acabaram com os ninhos. No começo a colheita melhorou, mas, de repente, a população de gafanhotos eclodiu, porque os pardais não estavam mais lá para comê-los. Isso gerou uma reação em cadeia que destruiu o fornecimento de alimento, matando de fome 36 milhões de pessoas em apenas 03 anos.

O que estamos descobrindo agora é uma ciência que sustenta e explica todas essas ideias intuitivas que as culturas nativas, culturas tradicionais e religiões orientais já sabiam há muito tempo“, afirma Marilyn Schlitz, presidente emérita do Institute of Noetic Sciences. É o que mostra o filme Mundos Internos, Mundos Externos.

Para que possamos exercer nosso potencial de enxergar essas interligações, é necessário ter um olhar transdisciplinar, consistente em (i) reconhecer os diferentes níveis de realidade regidos por lógicas distintas; (ii) ultrapassar o domínio das ciências exatas mediante diálogo com a arte, literatura, humanas e espiritualidade; (iii) reconhecer a Terra como pátria; (iv) ter uma atitude aberta com respeito aos mitos, às religiões e àqueles que os respeitam; (v) não julgar outras culturas, mas integrar um movimento transcultural; (vi) reavaliar o papel da intuição, da imaginação, da sensibilidade e do corpo na transmissão dos conhecimentos, e (vii) conduzir a uma compreensão compartilhada baseada no respeito absoluto das diferenças entre os seres, unidos pela vida comum sobre uma única e mesma Terra.

Foi com esse olhar e com a habilidade de fazer combinações e conexões não usuais que Leonardo da Vinci exerceu toda a sua genialidade. Afinal, enfatiza Steven Johnson, “as conexões são a chave para a sabedoria“:

Os fios de conexão percorrem caminhos muitas vezes por nós desconhecidos. Sem a consciência de que tudo afeta tudo, acabamos não percebendo que cada escolha que fazemos, por mais simples e corriqueira que seja, traz um impacto: na família, na comunidade e no mundo. E com o mundo cada vez mais interconectado, isso acontece mais rápido.

Portanto, hoje mais do que nunca, precisamos usar a imaginação para sair da lógica linear e enxergar a gama infinita de possibilidades, e a inteligência do coração para inspirar a parte de nós que busca a conexão, e não a separação.