Conexão pelo diálogo

deniselagrotta curadoria de conteúdos

“O que precisamos é falar, comunicar-nos. Atualmente, há diferenças, e muitas não não negociáveis. O que é necessário é um diálogo no sentido real da palavra ‘diálogo’, o fluir entre as pessoas…” – David Bohm

Falar livremente o que se pensa com a segurança de que será totalmente ouvido. Escutar o outro com plena atenção e empatia. Suspender o julgamento do que está sendo dito, e se abrir para enxergar outros pontos de vista. Acolher e legitimar a opinião do outro, sem ter que necessariamente concordar. Não competir para saber quem está certo, mas sim compartilhar significados em que todos ganham.

São essas iniciativas que constroem o diálogo que Humberto Mariotti define como “uma metodologia que permite que as pessoas pensem juntas e compartilhem os dados que surgem dessa interação sem procurar analisá-los ou julgá-los de imediato”.

O filósofo ateniense Sócrates compreendia a importância do diálogo, pois estava sempre cercado de pessoas, escutando-as e lhes fazendo perguntas. Para ele, a sua sabedoria emergia dessas conversas.

Continuando nesse caminho, o físico David Bohm e o filósofo Jiddu Krishnamurti deram início ao movimento dialógico que hoje é referência mundial.

É preciso reaprender a arte de dialogar. De acordo com a Escola de Diálogo de São Pauloeste é o modelo mental necessário para viver neste mundo onde tudo e todos estão relacionados:

A interdependência é, para a cultura ocidental, uma idéia muito nova. No coração dela está o Diálogo. O espírito que permeia o Diálogo é a abertura, a inclusão, o acesso à inteligência coletiva, a aceitação da diversidade e das diferenças, o reconhecimento do outro como legítimo companheiro de convivência, de trabalho e de jornada — neste tempo, neste lugar, neste planeta. é uma iniciativa crucial, agora que as tensões mundiais, coletivas e cotidianas estão evidentes.”

Não se trata de discussão, embora ela seja válida em contextos práticos, objetivos e pontuais. David Bohm esclarece que “a palavra ‘discussão’ significa ‘fragmentar tudo’, analisar e obter troca… o espírito do diálogo não é competição, mas encontrar algo novo. Todos então ganham”.

O diálogo é o meio que cuida de situações em que os sentimentos são considerados, e nas quais é necessário pensar de modo global e compreender a interligação entre o todo e as partes.

Para Marshall B. Rosenberg – fundador do Centro de Comunicação Não-Violenta —  a “comunicação começa quando expressamos nossos sentimentos. A partir do momento que as pessoas falam o que precisam, em vez de falarem o que está errado com os outros, o entendimento aumenta”.

A implementação e consolidação gradativa de uma cultura voltada à sustentabilidade só podem ocorrer com o diálogo.

Tome-se como exemplo a Norma ISO 26000 de Responsabilidade Socialque orienta a construção da base da gestão sustentável por meio da identificação e diálogo com todos aqueles cujos interesses legítimos sejam impactados pelas decisões da organização. Quando esse processo efetivamente acontece, não há dúvida de que todas as partes ganham.

O diálogo também fomenta a criatividade. Em seu livro “De onde vem as boas ideias”, Steven Johnson relata uma pesquisa feita pelo psicólogo Kevin Dunbar, em que ele chegou à conclusão de que “estalos” solitários eram algo raro.  Segundo Dunbar, “analogias produtivas entre diferentes campos especializados tinham maior probabilidade de emergir no ambiente de diálogo da reunião de laboratório “.

amizade de 20 anos entre o Papa Francisco e o Rabino argentino Abraham Skorka comprova que é possível o diálogo entre pessoas com crenças religiosas distintas.

Esse modelo é difícil para nós que estamos condicionados a comparar, conferir, controlar e julgar as crenças e posições alheias. Disputamos para ter razão e resistimos ao novo. E fechados com as nossas certezas, acabamos impedindo a abertura das portas ao diálogo.

Mas Jonas Gahr Store, Ministro dos Negócios Estrangeiros da Noruega, questiona:  Como vamos conseguir construir um grande “Nós” para lidar com nossas questões se não aperfeiçoarmos nossas habilidades de comunicação?”