Arte da escolha

deniselagrotta curadoria de conteúdos, inquietudes

“Nós somos as nossas escolhas” – Jean-Paul Sartre

Todo caminho é pavimentado por escolhas. O mundo contemporâneo apresenta um leque enorme de opções, desde as mais triviais até as mais complexas. Mas nem sempre o processo de escolha é algo simples e automático.

Barry Schwartz entende que a multiplicidade de opções imposta pelo mundo atual produz paralisia, em vez de liberdade. E mesmo quando se consegue superar a paralisia, é muito mais fácil se arrepender com o resultado.

Muitas vezes pensa-se que não há escolha. Jean-Paul Sartre disse que inexiste a possibilidade da não escolha. Mesmo quando não se escolhe, isso, por si só, já é uma escolha. Viktor Frankl – que viveu num campo de concentração – fez um depoimento emocionante nesse sentido:

“Nós que vivemos em campos de concentração podemos nos lembrar que os homens que percorriam as barracas para confortar os outros abriam mão de seu último pedaço de pão. Eles podem ter sido poucos em número, mas sustentaram prova suficiente de que tudo pode ser tirado de um homem exceto uma coisa: a última de suas liberdades — escolher sua atitude em um determinado arranjo circunstancial, a escolha de seu próprio caminho. (,,,) Fundamentalmente, portanto, qualquer homem pode, mesmo sob tais circunstâncias, decidir no que ele deve se tornar – mentalmente e espiritualmente. Ele pode manter sua dignidade humana mesmo em um campo de concentração.”

Quando se trata de escolher uma vida com propósito – uma das questões mais profundas que emergem na era atual – a dificuldade é ainda maior. Paula Abreu — advogada que abandonou a carreira para se focar no Blog “Escolha a Sua Vida”  — acredita que é possível escolher viver os seus sonhos.

Maria Konnikova diz que as nossas memórias afetam nossas escolhas. E que normalmente decidimos com base naquilo que nos é conhecido.

Talvez esse seja um dos motivos pelos quais em situações complexas teme-se arriscar algo novo. Mas Nilton Bonder assegura que “Vivemos com um temor falso. Acreditamos que o que nos causa medo é o encontro com o desconhecido, mas desde quando se pode realmente sentir medo do que não se conhece? Na verdade, nossa antecipação, nossa preocupação, nossa angústia e nosso controle é que não toleram lidar com situações nunca antes experimentadas sem buscar preenchê-las com vivências passadas.”

Sheena Iyengar  – que aos 13 anos de idade perdeu totalmente a visão devido a uma doença degenerativa – passou, muitas vezes, a depender das descrições alheias para realizar escolhas. Compartilhando sua inovadora pesquisa, ela faz algumas revelações surpreendentes sobre o processo de escolha e decisão.

O mais importante de tudo é ter a consciência de que todas as nossas escolhas moldam o que somos e como vivemos. Podemos acertar. Podemos errar. Mas temos a liberdade para fazer novas escolhas. Elas não são definitivas, e nem poderiam ser. Tudo muda o tempo todo. Como bem diz a escritora Martha Medeiros:

“Viver não é seguro. Viver não é fácil. E não pode ser monótono. Mesmo fazendo escolhas aparentemente definitivas, ainda assim podemos excursionar por dentro de nós mesmos e descobrir lugares desabitados onde nunca colocamos os pés, nem mesmo em imaginação. E estando lá, rever nossas escolhas e recalcular a duração de “pra sempre”. Muitas vezes o “pra sempre” não dura tanto quanto duram nossa teimosia e receio de mudar.”